sexta-feira, 31 de julho de 2015

Memórias dum pai que nunca tive…


Não sei quem és, posso até desconfiar mas sinceramente nunca me importei com o fato de para nós seres só um nome no meu Bilhete de Entidade.
Deveria de ser proibido ter categoria de pai quem nunca o foi, mas sempre vivi bem com isso.
 Na escola, a confusão era só para os outros meninos- “Não tens pai?” ; “Não, tenho a minha Mãe” e se até hoje não te procurei é porque até então nunca precisei de ti.
Nunca serei mais nem menos que qualquer um dos outros, sou uma pessoa sortuda porque tive na vida uma ausência que nunca se fez sentir. Hoje sim, choro pela ausência daquela que fez o teu papel, bem melhor do que tu serias capaz de fazer.
Não sei as circunstâncias em que a vida te colocou, mas para mim sempre foi muito fácil de lidar com o facto de que, para nós, nunca exististe. Nunca senti mágoa ao ver fotografias de famílias “normais” enquanto que a minha família era rica em pessoas que me amam de verdade. Hoje sim, choro ao ver fotografias que nunca mais poderei “imitar” porque falta a minha Mãe. Mas que te interessa a ti que eu, tua filha, chore? Foste alguém que nunca se importou em saber se eu estava bem, se era feliz ou se a tua mera ausência me fazia confusão. Digo-te agora, que estou bem e sou uma Mulher, aquela que não viste crescer nem ajudaste a levantar do chão. Mas sabes de quem é o problema? Apenas TEU.
 Um pai que me ensinasse a andar de bicicleta e que, com paciência, me fizesse perder o medo de andar sem rodinhas, um pai que me levasse a ver um jogo de futebol e me aliciasse a ser do seu clube, um pai que recebesse aquelas prendinhas do infantário que fiz com tanto carinho e amor, um pai que me desse as mãos quando calçava os patins, um pai que me perguntasse quem era o rapaz que tinha o nome dentro de um coração desenhado nos meus cadernos, um pai que me perguntasse quem eram os amigos com quem eu andava a passear, um pai que me proibisse de sair de casa a uma sexta à noite, um pai que me desse severos castigos e fizesse cara de mau, um pai que me repreendesse, um pai que seria para sempre o meu melhor amigo, um pai que me amasse, um pai que fosse pai. Coisas que a maioria presenciou, coisas que eu vivi, não contigo, NÃO! Mas com as pessoas que fizeram de mim uma pessoa feliz, a criança mais feliz do Mundo e a grande mulher que sou hoje.
 Escrevo sem que a ti cheguem estas palavras. Escrevo por desabafo e não por raiva. Jamais poderei guardar rancor de uma pessoa que desconheço, jamais. Apenas clarifico que toda a atenção que não me deste, todo o amor que de ti não chegou, que todos os carinhos que de ti não recebi fizeram de mim a melhor pessoa do mundo para a minha Mãe, porque sempre confiei nela para fazer o teu papel e ponho as mãos no fogo pelas vezes em que ela falhou como mãe e pai. Tu foste e és só um nome no meu, atual, Cartão do Cidadão. Na minha identificação pessoal constam vários nomes e o teu nunca estará incluído, porque pai não é quem gera, pai é muito mais do que o senhor da sementinha, pai cuida, educa, está presente e AMA. E tu? Tu certamente que não querias para a(s) tua(s) filha(s) um homem pequenininho como só tu soubeste ser.
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Fonte ela-e-ele
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quarta-feira, 15 de abril de 2015

O sonho dos ratos


Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.
Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade…Bem pertinho é modo de dizer.
Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato… O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho…Os ratos odiavam o gato.
Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro…
Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. “Quando se estabelecer a ditadura dos ratos”, diziam os camundongos, “então todos serão felizes”…
- O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.
- Socializaremos o queijo, dizia outro.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.
Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: “o queijo, já!”…
Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era.
O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu.
Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.
Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram.
Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.
Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.
Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando. Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.
O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra.
Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Medo


 Certa manhã, ganhamos de presente 
um coelhinho das Índias.
Chegou em casa numa gaiola. 
Ao meio-dia, abri a porta da gaiola.
Voltei para casa ao anoitecer 
e o encontrei tal e qual o havia deixado: 
 gaiola adentro, 
grudado nas barras, 
tremendo por causa do susto da liberdade.
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quarta-feira, 18 de março de 2015

Amor e Tortura


 
 Há uma diferença na relação entre amar e torturar 
e muitos se confundem.
Amar é ficar satisfeito com a presença. 
Torturar é ser insaciável.
Amar é sempre dizer que já tem o suficiente. 
Torturar é sempre pedir mais e chamar atenção para aquilo que não recebeu.
Amar é conter o ciúme. 
Torturar é não deixar sair.
Amar é sentir saudade e fazer declarações. 
Torturar é não mandar notícias.
Amar é assumir a responsabilidade. 
Torturar é culpar.
Amar é festejar a simplicidade. 
Torturar é complicar a conversa.
Amar é recordar os momentos felizes. 
Torturar é lembrar as discussões.
Amar é evidenciar as qualidades de nossa companhia. 
Torturar é censurar os defeitos.
Amar é acalmar. 
Torturar é implicar.
Amar é fazer tudo para dar certo, 
torturar é fazer tudo para dar errado e ainda dizer que avisou do pior.
Quem ama quer ser melhor para o outro. 
Quem tortura quer ser melhor do que o outro.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Ferramentas...


Deus usa a solidão para ensinar a convivência. Usa a raiva para mostrar o infinito valor da paz. Usa o tédio para ressaltar a importância da aventura e do abandono. Deus usa o silêncio para ensinar sobre a responsabilidade das palavras. Usa o cansaço para que se possa compreender o valor do despertar. Usa a doença para ressaltar a bênção da saúde. Deus usa o fogo para ensinar sobre a água. Usa a terra para que se compreenda o valor do ar. Usa a morte para mostrar a importância da vida. 
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